Capacidade real da vibroprensa: a conta e onde a planilha erra

Como calcular a capacidade real de uma vibroprensa: minutos úteis, eficiência, refugo, tábuas, misturador e cura. Exemplo passo a passo e checklist.

Por Equipe ConcrIQ
· 12 min de leitura

Toda fábrica de blocos e pavers tem uma planilha que diz quanto a prensa produz por dia. E quase toda fábrica já prometeu uma entrega com base nesse número e depois correu atrás do prejuízo no sábado. O problema raramente é a conta de multiplicar. É o que fica de fora dela.

Este artigo mostra como chegar à capacidade real de uma vibroprensa, passo a passo, com um exemplo numérico completo. Os números são fictícios; troque pelos seus.

A conta base

A conta que todo mundo conhece é esta:

capacidade = ciclos por minuto × peças por tábua × minutos úteis × eficiência

  • Ciclos por minuto: quantas vezes a prensa completa o ciclo (enche, vibra, prensa, desforma, troca a tábua) em um minuto. Ciclo de 24 segundos = 60 ÷ 24 = 2,5 ciclos/min.
  • Peças por tábua: quantas peças a forma faz por ciclo. Um ciclo é uma tábua.
  • Minutos úteis: o tempo em que a prensa pode de fato produzir. Não é o turno do relógio.
  • Eficiência: quanto do ritmo nominal a prensa entrega enquanto está rodando (as pequenas paradas que ninguém anota).

Atenção: uma prensa não roda duas formas ao mesmo tempo. Se a máquina tem uma forma de bloco e outra de paver, a capacidade dela é a da forma que está montada, nunca a soma das duas.

Minutos úteis de verdade

O turno das 7h às 17h tem 600 minutos no relógio. A prensa não produz 600 minutos. Antes de pensar em eficiência, desconte em minutos tudo o que você sabe que vai acontecer.

Paradas que se repetem todo dia

  • Refeição e cafés. Confira se o turno cadastrado já é líquido ou não. É a origem de muita conta dobrada.
  • Aquecimento e acerto do ponto da massa. As primeiras tábuas do dia saem fora de dimensão ou de peso e vão para o refugo. Faixa típica: 10 a 20 minutos por turno.
  • Limpeza no fim do turno (gaveta, forma, misturador). Faixa típica: 15 a 30 minutos.
  • Lubrificação e inspeção diária, se a fábrica faz com a máquina parada.

Paradas que dependem do programa

  • Troca de forma. Faixa típica: 20 a 45 minutos com sistema de troca rápida; 1 a 3 horas em forma parafusada, com ajuste de sapata, extrator e altura de enchimento.
  • Troca de cor ou de traço na mesma forma. Faixa típica: 5 a 15 minutos para trocar só o traço; 10 a 20 minutos do cinza para uma cor ou de uma cor clara para uma mais escura; 30 a 60 minutos do escuro para o claro, porque exige lavar misturador e gaveta.
  • Manutenção preventiva programada: bloqueia a máquina pelo tempo da ordem de serviço.

Por isso a sequência importa: agrupar por forma e, dentro da mesma forma, ir do cinza para as cores claras, depois vermelho, depois as escuras. Cada volta do escuro para o claro custa uma lavagem.

Eficiência não é disponibilidade

São duas coisas diferentes:

  • Eficiência (de ritmo): com a máquina ligada e programada, quanto do ritmo nominal ela entrega. Pega as microparadas: gaveta que trava, tábua torta, operador ajustando a vibração. Faixa típica em prensa bem tocada: 75% a 90%. Eficiência abaixo de 60% por semanas seguidas costuma indicar que o ciclo cadastrado é otimista, não que a equipe é ruim.
  • Disponibilidade: de todos os turnos programados, quantos a máquina realmente rodou inteiros. Pega o turno parcial (quebrou às 10h e voltou no dia seguinte), a falta de energia, o dia em que faltou cimento.

A disponibilidade tem de vir do histórico da sua máquina. Exemplo: nos últimos três meses, de 60 turnos programados, 48 rodaram inteiros, 10 rodaram pela metade e 2 não rodaram. Disponibilidade = (48 + 10 × 0,5) ÷ 60 = 88%.

A regra de ouro: cada perda entra uma vez só. Parada planejada sai dos minutos úteis. Microparada fica na eficiência. Turno perdido ou pela metade fica na disponibilidade. Quem desconta o almoço nos minutos e ainda põe 70% de eficiência "para garantir" está contando a mesma perda duas vezes, e a fábrica parece pior do que é.

Refugo, tábua e palete

A prensa produz peças brutas. O cliente compra peças boas, em palete fechado.

  • Refugo: capacidade boa = capacidade bruta × (1 − refugo). Para chegar a um pedido, o caminho é o inverso: peças a prensar = peças boas ÷ (1 − refugo). Somar 3% em vez de dividir por 0,97 dá quase o mesmo com refugo baixo, mas o erro cresce com o refugo.
  • Tábua: a prensa não faz meia tábua. Na capacidade, arredonde para baixo, em tábuas cheias. No plano de um pedido, arredonde para cima.
  • Palete: o que se vende e se carrega é palete cheio. Peça avulsa no fim do dia é estoque parado, não capacidade.

Exemplo de pedido, com forma de 8 peças, refugo de 3% e palete de 90 peças: 5.000 peças viram 56 paletes (5.040 boas), que pedem 5.040 ÷ 0,97 = 5.196 peças prensadas, ou seja, 650 tábuas (5.200 peças).

Gargalos fora da prensa

A linha é uma corrente: a capacidade é a do elo mais fraco.

Misturador compartilhado

Calcule quanta massa a prensa pede por hora. No exemplo, a prensa entrega 17 peças por minuto (veja a tabela mais abaixo) e cada bloco fresco pesa 12,5 kg: são 212,5 kg/min, ou 12,75 toneladas por hora. Com massada de 800 kg, a prensa pede 15,9 massadas por hora.

Um misturador que leva 3,5 minutos por massada (dosar, misturar, descarregar) faz 17,1 massadas por hora. Ocupação: 93%. Qualquer atraso na dosagem já para a prensa. Faixas típicas de mercado: ciclo de massada de 2,5 a 4 minutos em misturador planetário; massada de 500 a 1.500 kg em fábrica média.

Se uma segunda prensa igual ligar no mesmo misturador, as duas pedem 31,9 massadas por hora contra 17,1 disponíveis. O misturador manda: cada prensa roda a cerca de 54% do próprio ritmo. E as duas só podem rodar o mesmo traço e a mesma cor ao mesmo tempo, senão há limpeza a cada alternância.

Tábuas em giro

Cada ciclo prende uma tábua até a peça curar e ser cubada. No exemplo, a prensa usa 956 tábuas por dia, cerca de 127 por hora rodando. Com cura de 24 horas até a cubagem, a primeira tábua de segunda-feira só volta lá pelas 9h de terça.

Se a fábrica tem 1.000 tábuas, na terça sobram 44 livres às 7h. Elas acabam em uns 20 minutos, e a prensa espera mais de uma hora pela primeira tábua que volta. Ninguém lança isso como "falta de tábua": lança como baixa eficiência. Conta de bolso: tábuas necessárias ≈ tábuas por hora × horas até a tábua voltar + 10% de reserva.

Câmara de cura e cubagem

A câmara tem capacidade em tábuas (baias × tábuas por baia). Uma câmara de 10 baias com 80 tábuas cada guarda 800 tábuas. Um dia de 956 tábuas não cabe: 156 tábuas vão curar no galpão, em mais tempo, ou a prensa para.

Faixa típica até poder cubar: 8 a 24 horas, conforme cimento, câmara e temperatura. No inverno, em cura ambiente, a mesma peça pode levar 1,5 a 2 vezes mais tempo (faixa típica). O prazo para cubar e para expedir é decisão do responsável técnico da fábrica; não existe um número único de norma para isso.

Por fim, a cubagem: se a equipe não paletiza no ritmo da prensa, as tábuas não voltam e a prensa para no dia seguinte.

Exemplo completo, passo a passo

Prensa com forma de bloco 14x19x39, 8 peças por tábua, ciclo medido de 24 s, um turno das 7h às 17h, uma troca de cor no dia (cinza para vermelho, mesma forma), refugo de 3%, palete de 90 blocos, 22 dias úteis no mês.

PassoContaResultado
1. Turno no relógio7h às 17h600 min
2. Refeição e cafés600 − 60 − 20520 min
3. Aquecimento e limpeza520 − 15 − 25480 min
4. Troca de cor480 − 20460 min
5. Lubrificação diária460 − 10450 min úteis
6. Ritmo nominal2,5 ciclos/min × 8 peças20 peças/min
7. Eficiência de ritmo de 85%20 × 0,8517 peças/min
8. Produção bruta17 × 4507.650 peças
9. Tábuas cheias7.650 ÷ 8 = 956,25 → 9567.648 peças
10. Refugo de 3%7.648 × 0,97 = 7.418,67.418 peças boas
11. Paletes cheios7.418 ÷ 90 = 82,4 → 827.380 peças/dia (590 m²)
12. Mês, com disponibilidade de 88%7.380 × 22 × 0,88≈ 142.900 peças/mês

A planilha típica faz 20 peças/min × 480 min (as "8 horas") = 9.600 peças/dia, ou 211.200 por mês. A capacidade real do dia é 23% menor; a do mês, 32% menor. E isso antes de olhar se o misturador, as tábuas e a câmara acompanham.

Os erros mais comuns da planilha

  1. Ciclo de catálogo em vez de ciclo medido na sua massa, com a sua forma.
  2. Turno do relógio em vez de minutos úteis.
  3. Perda contada duas vezes, ou nenhuma: almoço descontado nos minutos e de novo na eficiência.
  4. Meta usada como capacidade. Meta é para cobrar a equipe; para programar, use o ritmo realizado.
  5. Sem disponibilidade: todo turno programado é tratado como turno cheio.
  6. Sem refugo, ou refugo somado em vez de dividido.
  7. Sem arredondamento para tábua e palete.
  8. Soma das formas de uma mesma prensa.
  9. Troca de forma e de cor esquecidas, ou sempre com o mesmo tempo, tanto faz se é do escuro para o claro.
  10. Gargalos fora da prensa ignorados: misturador dividido, tábuas, câmara, cubagem.
  11. 22 dias fixos no mês, sem feriado, sábado extra nem preventiva.
  12. Programar a capacidade, não a necessidade: a ordem sai com o máximo que a máquina faz, e o pátio enche de produto que ninguém pediu.

Como medir o ciclo real

Cronômetro

  • Meça com a máquina em regime, depois do aquecimento, com a massa no ponto.
  • Cronometre 20 ciclos seguidos e divida. Exemplo: 20 ciclos em 8 minutos = 480 s ÷ 20 = 24 s por ciclo.
  • Repita em três momentos do turno (início, meio, fim) e em cada forma e produto. Paver colorido e bloco cinza na mesma prensa podem ter ciclos diferentes.

Contador de ciclos

Se a prensa tem contador (no painel ou no CLP), anote o número no início e no fim do turno. Divida pelos minutos em que a máquina esteve liberada para produzir. Exemplo: 956 ciclos em 450 minutos = 2,12 ciclos/min. Comparando com os 2,5 do cronômetro: 2,12 ÷ 2,5 = 85% de eficiência de ritmo. Pronto: o cronômetro dá o ritmo nominal, o contador dá o realizado, e a divisão dá a eficiência medida, não chutada.

Peças boas

Ciclos × peças por tábua é o bruto. As peças contadas na cubagem são as boas. A diferença é o seu refugo real. Faça isso por duas a quatro semanas e troque os números da planilha pelos medidos.

Checklist da capacidade real

  • Ciclo medido com cronômetro, por forma e produto, em regime.
  • Peças por tábua conferidas na forma montada.
  • Turno com refeição e cafés descontados uma vez só.
  • Aquecimento, limpeza e lubrificação em minutos por turno.
  • Trocas de forma e de cor do programa descontadas, com a sequência de cor respeitada.
  • Eficiência medida pelo contador (ou faixa típica de 75% a 90% até medir).
  • Disponibilidade tirada do histórico de turnos parciais e perdidos.
  • Refugo medido e aplicado dividindo, não somando.
  • Arredondamento para tábua e palete cheios.
  • Misturador: massadas por hora pedidas × disponíveis, somando as prensas que dividem o mesmo.
  • Tábuas em giro suficientes para o tempo de cura até a cubagem.
  • Câmara com lugar para as tábuas do dia; cubagem acompanhando a prensa.
  • Dias do mês com feriado, sábado extra e preventiva.

Perguntas frequentes

Qual eficiência usar se eu nunca medi?

Comece com uma faixa típica de 75% a 90% para prensa bem tocada e marque como provisória. Em duas a quatro semanas de contador e cronômetro você tem o número da sua máquina.

Calculo a capacidade em peças ou em m²?

Em peças, sempre. A prensa trabalha em ciclos e tábuas; m² e metro linear são conversão de venda, feita no fim, com o fator cadastrado do produto.

Um sábado extra resolve o atraso?

Só se as tábuas, a câmara e a cubagem também tiverem folga. Se o gargalo é a tábua que não voltou, mais horas de prensa não viram mais peças.

Quando a peça está pronta para entregar?

Depende do prazo de cura definido pelo responsável técnico e, quando a obra exige ensaio pela norma do produto (por exemplo, NBR 6136 para blocos e NBR 9781 para pavers), do lote aprovado no laboratório. Nesses casos a data de entrega é a do laudo, não a do fim da cura.

Conclusão

Capacidade real não é um número fixo pregado na parede: muda com a forma montada, com a sequência de cores, com o turno parcial da semana passada e com a quantidade de tábuas que voltaram da câmara. Refazer essa conta toda semana na planilha é trabalhoso, e é por isso que o planejamento do ConcrIQ já calcula a capacidade de cada prensa com minutos úteis, trocas, refugo, tábuas e cura, a partir do que a fábrica cadastra e lança no dia a dia.

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