Toda fábrica de blocos e pavers tem uma planilha que diz quanto a prensa produz por dia. E quase toda fábrica já prometeu uma entrega com base nesse número e depois correu atrás do prejuízo no sábado. O problema raramente é a conta de multiplicar. É o que fica de fora dela.
Este artigo mostra como chegar à capacidade real de uma vibroprensa, passo a passo, com um exemplo numérico completo. Os números são fictícios; troque pelos seus.
A conta base
A conta que todo mundo conhece é esta:
capacidade = ciclos por minuto × peças por tábua × minutos úteis × eficiência
- Ciclos por minuto: quantas vezes a prensa completa o ciclo (enche, vibra, prensa, desforma, troca a tábua) em um minuto. Ciclo de 24 segundos = 60 ÷ 24 = 2,5 ciclos/min.
- Peças por tábua: quantas peças a forma faz por ciclo. Um ciclo é uma tábua.
- Minutos úteis: o tempo em que a prensa pode de fato produzir. Não é o turno do relógio.
- Eficiência: quanto do ritmo nominal a prensa entrega enquanto está rodando (as pequenas paradas que ninguém anota).
Atenção: uma prensa não roda duas formas ao mesmo tempo. Se a máquina tem uma forma de bloco e outra de paver, a capacidade dela é a da forma que está montada, nunca a soma das duas.
Minutos úteis de verdade
O turno das 7h às 17h tem 600 minutos no relógio. A prensa não produz 600 minutos. Antes de pensar em eficiência, desconte em minutos tudo o que você sabe que vai acontecer.
Paradas que se repetem todo dia
- Refeição e cafés. Confira se o turno cadastrado já é líquido ou não. É a origem de muita conta dobrada.
- Aquecimento e acerto do ponto da massa. As primeiras tábuas do dia saem fora de dimensão ou de peso e vão para o refugo. Faixa típica: 10 a 20 minutos por turno.
- Limpeza no fim do turno (gaveta, forma, misturador). Faixa típica: 15 a 30 minutos.
- Lubrificação e inspeção diária, se a fábrica faz com a máquina parada.
Paradas que dependem do programa
- Troca de forma. Faixa típica: 20 a 45 minutos com sistema de troca rápida; 1 a 3 horas em forma parafusada, com ajuste de sapata, extrator e altura de enchimento.
- Troca de cor ou de traço na mesma forma. Faixa típica: 5 a 15 minutos para trocar só o traço; 10 a 20 minutos do cinza para uma cor ou de uma cor clara para uma mais escura; 30 a 60 minutos do escuro para o claro, porque exige lavar misturador e gaveta.
- Manutenção preventiva programada: bloqueia a máquina pelo tempo da ordem de serviço.
Por isso a sequência importa: agrupar por forma e, dentro da mesma forma, ir do cinza para as cores claras, depois vermelho, depois as escuras. Cada volta do escuro para o claro custa uma lavagem.
Eficiência não é disponibilidade
São duas coisas diferentes:
- Eficiência (de ritmo): com a máquina ligada e programada, quanto do ritmo nominal ela entrega. Pega as microparadas: gaveta que trava, tábua torta, operador ajustando a vibração. Faixa típica em prensa bem tocada: 75% a 90%. Eficiência abaixo de 60% por semanas seguidas costuma indicar que o ciclo cadastrado é otimista, não que a equipe é ruim.
- Disponibilidade: de todos os turnos programados, quantos a máquina realmente rodou inteiros. Pega o turno parcial (quebrou às 10h e voltou no dia seguinte), a falta de energia, o dia em que faltou cimento.
A disponibilidade tem de vir do histórico da sua máquina. Exemplo: nos últimos três meses, de 60 turnos programados, 48 rodaram inteiros, 10 rodaram pela metade e 2 não rodaram. Disponibilidade = (48 + 10 × 0,5) ÷ 60 = 88%.
A regra de ouro: cada perda entra uma vez só. Parada planejada sai dos minutos úteis. Microparada fica na eficiência. Turno perdido ou pela metade fica na disponibilidade. Quem desconta o almoço nos minutos e ainda põe 70% de eficiência "para garantir" está contando a mesma perda duas vezes, e a fábrica parece pior do que é.
Refugo, tábua e palete
A prensa produz peças brutas. O cliente compra peças boas, em palete fechado.
- Refugo: capacidade boa = capacidade bruta × (1 − refugo). Para chegar a um pedido, o caminho é o inverso: peças a prensar = peças boas ÷ (1 − refugo). Somar 3% em vez de dividir por 0,97 dá quase o mesmo com refugo baixo, mas o erro cresce com o refugo.
- Tábua: a prensa não faz meia tábua. Na capacidade, arredonde para baixo, em tábuas cheias. No plano de um pedido, arredonde para cima.
- Palete: o que se vende e se carrega é palete cheio. Peça avulsa no fim do dia é estoque parado, não capacidade.
Exemplo de pedido, com forma de 8 peças, refugo de 3% e palete de 90 peças: 5.000 peças viram 56 paletes (5.040 boas), que pedem 5.040 ÷ 0,97 = 5.196 peças prensadas, ou seja, 650 tábuas (5.200 peças).
Gargalos fora da prensa
A linha é uma corrente: a capacidade é a do elo mais fraco.
Misturador compartilhado
Calcule quanta massa a prensa pede por hora. No exemplo, a prensa entrega 17 peças por minuto (veja a tabela mais abaixo) e cada bloco fresco pesa 12,5 kg: são 212,5 kg/min, ou 12,75 toneladas por hora. Com massada de 800 kg, a prensa pede 15,9 massadas por hora.
Um misturador que leva 3,5 minutos por massada (dosar, misturar, descarregar) faz 17,1 massadas por hora. Ocupação: 93%. Qualquer atraso na dosagem já para a prensa. Faixas típicas de mercado: ciclo de massada de 2,5 a 4 minutos em misturador planetário; massada de 500 a 1.500 kg em fábrica média.
Se uma segunda prensa igual ligar no mesmo misturador, as duas pedem 31,9 massadas por hora contra 17,1 disponíveis. O misturador manda: cada prensa roda a cerca de 54% do próprio ritmo. E as duas só podem rodar o mesmo traço e a mesma cor ao mesmo tempo, senão há limpeza a cada alternância.
Tábuas em giro
Cada ciclo prende uma tábua até a peça curar e ser cubada. No exemplo, a prensa usa 956 tábuas por dia, cerca de 127 por hora rodando. Com cura de 24 horas até a cubagem, a primeira tábua de segunda-feira só volta lá pelas 9h de terça.
Se a fábrica tem 1.000 tábuas, na terça sobram 44 livres às 7h. Elas acabam em uns 20 minutos, e a prensa espera mais de uma hora pela primeira tábua que volta. Ninguém lança isso como "falta de tábua": lança como baixa eficiência. Conta de bolso: tábuas necessárias ≈ tábuas por hora × horas até a tábua voltar + 10% de reserva.
Câmara de cura e cubagem
A câmara tem capacidade em tábuas (baias × tábuas por baia). Uma câmara de 10 baias com 80 tábuas cada guarda 800 tábuas. Um dia de 956 tábuas não cabe: 156 tábuas vão curar no galpão, em mais tempo, ou a prensa para.
Faixa típica até poder cubar: 8 a 24 horas, conforme cimento, câmara e temperatura. No inverno, em cura ambiente, a mesma peça pode levar 1,5 a 2 vezes mais tempo (faixa típica). O prazo para cubar e para expedir é decisão do responsável técnico da fábrica; não existe um número único de norma para isso.
Por fim, a cubagem: se a equipe não paletiza no ritmo da prensa, as tábuas não voltam e a prensa para no dia seguinte.
Exemplo completo, passo a passo
Prensa com forma de bloco 14x19x39, 8 peças por tábua, ciclo medido de 24 s, um turno das 7h às 17h, uma troca de cor no dia (cinza para vermelho, mesma forma), refugo de 3%, palete de 90 blocos, 22 dias úteis no mês.
| Passo | Conta | Resultado |
|---|---|---|
| 1. Turno no relógio | 7h às 17h | 600 min |
| 2. Refeição e cafés | 600 − 60 − 20 | 520 min |
| 3. Aquecimento e limpeza | 520 − 15 − 25 | 480 min |
| 4. Troca de cor | 480 − 20 | 460 min |
| 5. Lubrificação diária | 460 − 10 | 450 min úteis |
| 6. Ritmo nominal | 2,5 ciclos/min × 8 peças | 20 peças/min |
| 7. Eficiência de ritmo de 85% | 20 × 0,85 | 17 peças/min |
| 8. Produção bruta | 17 × 450 | 7.650 peças |
| 9. Tábuas cheias | 7.650 ÷ 8 = 956,25 → 956 | 7.648 peças |
| 10. Refugo de 3% | 7.648 × 0,97 = 7.418,6 | 7.418 peças boas |
| 11. Paletes cheios | 7.418 ÷ 90 = 82,4 → 82 | 7.380 peças/dia (590 m²) |
| 12. Mês, com disponibilidade de 88% | 7.380 × 22 × 0,88 | ≈ 142.900 peças/mês |
A planilha típica faz 20 peças/min × 480 min (as "8 horas") = 9.600 peças/dia, ou 211.200 por mês. A capacidade real do dia é 23% menor; a do mês, 32% menor. E isso antes de olhar se o misturador, as tábuas e a câmara acompanham.
Os erros mais comuns da planilha
- Ciclo de catálogo em vez de ciclo medido na sua massa, com a sua forma.
- Turno do relógio em vez de minutos úteis.
- Perda contada duas vezes, ou nenhuma: almoço descontado nos minutos e de novo na eficiência.
- Meta usada como capacidade. Meta é para cobrar a equipe; para programar, use o ritmo realizado.
- Sem disponibilidade: todo turno programado é tratado como turno cheio.
- Sem refugo, ou refugo somado em vez de dividido.
- Sem arredondamento para tábua e palete.
- Soma das formas de uma mesma prensa.
- Troca de forma e de cor esquecidas, ou sempre com o mesmo tempo, tanto faz se é do escuro para o claro.
- Gargalos fora da prensa ignorados: misturador dividido, tábuas, câmara, cubagem.
- 22 dias fixos no mês, sem feriado, sábado extra nem preventiva.
- Programar a capacidade, não a necessidade: a ordem sai com o máximo que a máquina faz, e o pátio enche de produto que ninguém pediu.
Como medir o ciclo real
Cronômetro
- Meça com a máquina em regime, depois do aquecimento, com a massa no ponto.
- Cronometre 20 ciclos seguidos e divida. Exemplo: 20 ciclos em 8 minutos = 480 s ÷ 20 = 24 s por ciclo.
- Repita em três momentos do turno (início, meio, fim) e em cada forma e produto. Paver colorido e bloco cinza na mesma prensa podem ter ciclos diferentes.
Contador de ciclos
Se a prensa tem contador (no painel ou no CLP), anote o número no início e no fim do turno. Divida pelos minutos em que a máquina esteve liberada para produzir. Exemplo: 956 ciclos em 450 minutos = 2,12 ciclos/min. Comparando com os 2,5 do cronômetro: 2,12 ÷ 2,5 = 85% de eficiência de ritmo. Pronto: o cronômetro dá o ritmo nominal, o contador dá o realizado, e a divisão dá a eficiência medida, não chutada.
Peças boas
Ciclos × peças por tábua é o bruto. As peças contadas na cubagem são as boas. A diferença é o seu refugo real. Faça isso por duas a quatro semanas e troque os números da planilha pelos medidos.
Checklist da capacidade real
- Ciclo medido com cronômetro, por forma e produto, em regime.
- Peças por tábua conferidas na forma montada.
- Turno com refeição e cafés descontados uma vez só.
- Aquecimento, limpeza e lubrificação em minutos por turno.
- Trocas de forma e de cor do programa descontadas, com a sequência de cor respeitada.
- Eficiência medida pelo contador (ou faixa típica de 75% a 90% até medir).
- Disponibilidade tirada do histórico de turnos parciais e perdidos.
- Refugo medido e aplicado dividindo, não somando.
- Arredondamento para tábua e palete cheios.
- Misturador: massadas por hora pedidas × disponíveis, somando as prensas que dividem o mesmo.
- Tábuas em giro suficientes para o tempo de cura até a cubagem.
- Câmara com lugar para as tábuas do dia; cubagem acompanhando a prensa.
- Dias do mês com feriado, sábado extra e preventiva.
Perguntas frequentes
Qual eficiência usar se eu nunca medi?
Comece com uma faixa típica de 75% a 90% para prensa bem tocada e marque como provisória. Em duas a quatro semanas de contador e cronômetro você tem o número da sua máquina.
Calculo a capacidade em peças ou em m²?
Em peças, sempre. A prensa trabalha em ciclos e tábuas; m² e metro linear são conversão de venda, feita no fim, com o fator cadastrado do produto.
Um sábado extra resolve o atraso?
Só se as tábuas, a câmara e a cubagem também tiverem folga. Se o gargalo é a tábua que não voltou, mais horas de prensa não viram mais peças.
Quando a peça está pronta para entregar?
Depende do prazo de cura definido pelo responsável técnico e, quando a obra exige ensaio pela norma do produto (por exemplo, NBR 6136 para blocos e NBR 9781 para pavers), do lote aprovado no laboratório. Nesses casos a data de entrega é a do laudo, não a do fim da cura.
Conclusão
Capacidade real não é um número fixo pregado na parede: muda com a forma montada, com a sequência de cores, com o turno parcial da semana passada e com a quantidade de tábuas que voltaram da câmara. Refazer essa conta toda semana na planilha é trabalhoso, e é por isso que o planejamento do ConcrIQ já calcula a capacidade de cada prensa com minutos úteis, trocas, refugo, tábuas e cura, a partir do que a fábrica cadastra e lança no dia a dia.